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quarta-feira, 23 de maio de 2012

INAJÁ, FRUTEIRA AMAZÔNICA DE GRANDE POTENCIAL ALIMENTAR, INDUSTRIAL E PAISAGISTICO 
É uma palmeira oleaginosa muito frequente e abundante na Amazônia, porém pouco conhecida e estudada, contudo, apresenta potencial para uso na alimentação, produção de cosméticos e energia renovável (biodiesel).

Afonso Rabelo-Engenheiro Florestal
rabeloafonso@gmail.com

NOMENCLATURA DA ESPÉCIE
Nome científico Maximiliana maripa (Aubl.) Drude
Sinonímias – Attalea venatorum (Poepp. ex Mart.) Mart., Cocos venatorum Poepp. ex Mart.), Maximiliana regia Mart., Maximiliana stenocarpa Burret, Maximiliana venatorum (Poepp. ex Mart.) H. A. Wendland ex Kerchove, Palma maripa Aubl.
Família – Arecaceae.
Nomes vulgar – inajá.

Origem – Amazônia.

Distribuição – Bolívia, Colômbia, Equador, Guianas, Peru, Suriname, Trinidad e Tobago e Venezuela. No Brasil, ocorre nos Estados do Acre, Amazonas, região ocidental do Maranhão, norte do Mato Grosso, Pará, Roraima, Rondônia e Norte de Tocantins.

CARACTERÍSTICAS BOTÂNICAS

ÁRVORE – O inajazeiro nativo da Amazônia, é uma palmeira heliófila de terra firme, monocaule, podendo atingir até 25m de altura. Possui estipe (caule) aéreo, ereto e cilíndrico, medindo em média 35cm de diâmetro. Este estipe é liso nas plantas adultas, e cobertos por bainhas senescentes nas plantas jovens. Na superfície do solo próximo ao tronco da planta é comum a presença espatas, infrutescências velhas, sementes deterioradas e muitas plântulas.
     O inajá ocorre em todo o bioma amazônico, principalmente, nos Estados do Acre, Amazonas, região ocidental do Maranhão, norte do Mato Grosso, Pará, Roraima, Rondônia e norte de Tocantins. Nos Estados do Amazonas, Pará e Roraima, o inajazeiro é encontrado com grande frequência e abundância, especialmente em florestas de capoeiras, margens de estradas, pastagens degradadas e sobre alguns fragmentos de remanescentes florestais localizados dentro dos centros urbanos, nesses locais a palmeira tolera solos argilosos ou arenosos, bem drenados, úmidos ou secos. No entanto, em florestas primárias, apresenta baixa frequência e baixa abundância, sendo encontrado normalmente em alguns agrupamentos isolados sobre solos argilosos. Nesses ambientes são constituídos por alguns indivíduos adultos, e grande número de plântulas e plantas jovens na fase de crescimentos acaulescentes. Nessas florestas, quando ocorrem desmatamentos ou queimadas para preparação de roçados ou renovações de pastagens, tanto as plântulas, como indivíduos jovens, persistem nessas áreas, notadamente devido ao seu meristema apical, que na fase de plântulas e de crescimento acaulescente, permanecem abaixo do nível do solo, tolerando assim, o corte e suportando as queimadas. Depois desta fase, ocorre crescimento acelerado desses inajás em relação às outras plantas competidoras e, quando o processo é repetido periodicamente, pode resultar em populações homogêneas de inajazeiros nesses ambientes, tornando-se assim um grande obstáculo para a agropecuária. Após o estabelecimento em florestas degradadas, os inajás produzem frutos em grande abundância, evidentemente, por ser uma palmeira tolerante a pragas e doenças, bem como, suportar estiagens prolongadas, solos compactados, degradados e com baixa fertilidade. Os principais dispersores das sementes de inajás são: antas, araras, cutias, jabutis, macacos, pacas, porco-do-mato e tucanos (Figuras 1A e 1B).

 Figura 1A - Hábito de crescimento do inajá.

 Figura 1B - População de inajá em pastagens degradadas.

FOLHAS - A coroa foliar é composta por 14 a 18 folhas do tipo pindas, medindo até 10m de comprimento, e formadas por grupos de 2 e 4 folíolos opostos ou alternos espalhados em diferentes planos e distribuídos ao longo da raque (eixo central da folha). A bainha da folha é aberta, curta, com até 1,20m de comprimento e o pecíolo apresenta margem cortante, podendo alcança 3,4m de comprimento. Na coroa foliar, entre as bainhas novas e velhas, é comum a presença de insetos (besouros), de aracnídeos (aranhas e escorpiões), anfíbios (sapos), répteis (cobras), roedores (ratos e camundongos), marsupiais (mucuras) e plantas como: pteridófitas e orquídeas (Figuras 2A e 2B).

 Figura 2A - Detalhe da folha do inajá.

 Figura 2B - Folha do inajá, retratando grupos folíolos espalhados em diferentes planos.

INFLORESCÊNCIAS São do tipo espigada, com localização intrafoliar, ou seja, entre as bainhas das folhas. Estas inflorescências são protegidas por uma espata grande de superfície inferior lisa e superior sulcada, sendo de textura rígida e pontiaguda na extremidade apical. Normalmente essas inflorescências são monoicas, as quais apresentam flores masculinas e femininas juntas na mesma inflorescência, sendo as femininas distribuídas na base do eixo e as masculinas nas extremidades. Todavia, podem ocorrer inflorescências exclusivamente estaminadas, contendo somente flores masculinas, ou apenas pistiladas, que contém unicamente flores femininas, e raramente, todas juntas na mesma planta. As flores estaminadas são constituídas por 3  sépalas, 3 pétalas e 6 estames e as flores pistiladas por 3 sépalas livres, 3 pétalas ovoides e estigma trífido (Figuras 3A e 3B).

 Figura 3A - Inflorescência monoica do inajá, flores femininas na base e masculinas no ápice.

 Figura 3B - Detalhe da inflorescência estaminada (masculina) do inajá.
  
FRUTOS – Apresentam formas ovoides ou oblongas, medindo de 4 a 5,5cm de comprimento por 2,5 a 3,0cm de diâmetro e pesando entre 15 e 30g cada. Nas extremidades dos frutos é comum a presença estigma velho na extremidade apical e do perianto na base. O epicarpo (casca) é fino, apresentando superfície levemente áspera, textura fibrosa, coloração marrom-ferrugíneo e pequena porção esbranquiçada extensão do ápice do fruto. O mesocarpo (polpa) possui rendimento de ±30% do total do fruto, apresenta coloração amarelo-claro e aroma forte, semelhante ao óleo de coco (Cocos nucifera L.). Este mesocarpo é constituído por uma camada pastosa-oleosa revestida por fibras, e dele pode ser extraído até 35% de rendimento em óleo. É comestível na forma in natura ou cozido, e o sabor é levemente adocicado e agradável, sendo um alimento bastante calórico e rico em fósforo, magnésio, proteínas e ácidos graxos essenciais, no entanto, algumas variedades podem apresentar sabores travosos e repugnantes. Além do potencial alimentar, o óleo extraído do mesocarpo (polpa), apresenta potencial para uso na culinária caseira, produção de cosméticos e bioenergia (Figuras 4A, 4B, 4C e 4D).

 Figura 4A - Detalhe das infrutescências do inajá.

 Figura 4B - Detalhe da infrutescência do inajá.

 Figura 4C - Detalhe dos frutos maduros do inajá.

 Figura 4D - Frutos inteiros e descerrados.

SEMENTES – Possuem o endocarpo duro, consistência lenhosa e 3 poros na região apical, sendo um germinativo. O endocarpo é constituído por superfície lisa, brilhante e, coloração marrom. No interior do endocarpo encontra-se as sementes (amêndoas) com tegumento fino, estriado e coloração castanho; o endosperma é abundante, possui coloração branca, textura sólida e oleosa; o número de amêndoas por fruto varia entre 1 e 3, no entanto pode ser encontrados frutos com até 4 sementes. O rendimento em óleo das amêndoas pode atingir até 60%. Os endospermas (amêndoas) podem ser consumidos na forma in natura, e quando moídos, na alimentação de animais domésticos, contudo, óleo extraído possui grande potencial para uso na culinária caseira, agroindústria, produção de cosméticos e biodiesel, quando misturado ao óleo diesel. As sementes do inajazeiro não devem ser armazenadas, pois, são recalcitrantes e bastantes contaminadas por besouros bruquídeos. O armazenamento das sementes, podem reduzir significativamente a taxa de germinação e promoverá o aumento da predação das amêndoas pelas larvas dos besouros bruquídeos, todavia, as larvas desses besouros podem ser usadas como alimento (Figura 5A).

 Figura 5A - Detalhe das sementes inteiras e descerradas do inajá.

OUTROS USOS DO INJAZEIRO – As árvores têm potencial para uso no paisagismo urbano, pois tolera solos secos, compactados e com baixa fertilidade (Figura 6A). As folhas novas ainda fechadas são usadas para coberturas de casas e confecções de abanos, cestas e chapéus. As espatas das inflorescências são usadas como porta brinquedos, porta flores, porta fruteira ou como porta ração e porta água para animais domésticos. As sementes têm grande potencial para fabricação de biojoias tais como: anéis, brincos, colares e pulseiras.

 Figura 6A - Uso da árvore do inajá no paisagismo.

2 comentários:

  1. Olá,Afonso!
    Quero te parabenizar pelo teu blog tão bonito e interessante. Adorei poder passear por ele e descobrir tantas belezas e sutilezas desta maravilhosa flora do Amazonas. Sou bióloga, mas moro no Rio de Janeiro, e infelizmente, ainda não tive a oportunidade de visitar esta região tão rica em biodiversidade do nosso planeta... Mas com certeza, um dia ainda estarei por aí, para passear e me encantar diante da grandeza desse admirável lugar!
    Eu ainda não conhecia o "inajá", e fiquei admirada com a sua graciosidade e peculiaridades. Gosto muito de palmeiras em geral, e agora até me lembrei dos lindos buritizais que encontramos pelo caminho, quando viajávamos para Goías(meu marido é goiano)... E sinto sempre muita tristeza, quando observo a paisagem agora já tão diferente, com o desmatamento e as plantações de soja tomando o lugar precioso do nosso querido cerrado...Uma verdadeira desolação!
    Entretanto, ainda tenho esperança que uma nova política ambiental venha para mudar esta situação... Quem saberá? Por isso acho mesmo muito importante divulgarmos as belezas e os encantos da nossa natureza,para que muitas pessoas possam assim se conscientizar e ajudar a mudar o rumo dessa história.
    Parabéns também pelas suas fotos maravilhosas e por essa sua bela iniciativa de nos trazer tais conhecimentos e maravilhas!
    Um abraço grande e muito sucesso pra ti e pra toda essa gente valorosa do Amazonas!
    Teresa
    (do blog "Se essa lua fosse minha")

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    1. Olá Tereza, muito obrigado pelo excelente comentário. Suas considerações me motivam cada vez mais divulgar as peculiaridades da Amazônia, e com apoio de pessoas como você, conscientizar a sociedade em geral, visando especialmente, a preservação e a conservação da variabilidade genética desse imenso manancial, para que as gerações futuras possam usufruir também dessas riquezas. Todavia, considerando as populações tradicionais por meio da integração social e econômica, respeitando sobretudo seus conhecimentos, suas tradições e costumes. A Amazônia é de todos nós. Um forte abraço para você.

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